O próximo álbum Tiago Bettencourt & MANTHA já está gravado.
Foi gravado entre Maio e Junho deste ano. A primeira metade em Lisboa, ali no Namouche, e a segunda em Montreal, de volta ao estúdio Hotel2tango.
Foi mais um cativante percurso criativo orientado mais uma vez pelo Howard, com quem já tínhamos trabalhado no álbum anterior.
Este novo álbum tem data de lançamento marcada para o principio de Março, no entanto, algumas coisas poderão acontecer até lá...
Quisemos fazer tudo com calma, com tempo, quisemos fugir à azáfama do Natal, para termos espaço suficiente para construir a paisagem onde o álbum vai existir.
Não vou ainda falar sobre a sonoridade deste novo trabalho porque não sei bem como o descrever e só começo a aprender na altura de promoção em que tenho que inventar respostas diferentes para as mesmas perguntas...
Posso dizer que é mais um passo em frente.
As musicas falam, como sempre, da parte humana do mundo. São historias ou momentos que falam de coragem e fugas, convidam ao desprendimento do que nos trava a felicidade. Tudo isto com humor, um pouco de ironia mas também seriedade.
Os arranjos, por sua vez, são uma fotografia do que fomos durante aqueles 4 meses de composição e gravação.
Temos um teclista novo. Chama-se Benny Lackner e vem de Berlim e Nova York e quem quiser saber mais sobre o seu trabalho pode ir aos nossos amigos do myspace que está lá o link.
Espero que quando chegar, recebam este álbum com calma, que não o limitem aos hits, porque há sempre muito mais para lá do obvio.
Uma das letras das novas canções já está aqui no blog. Chama-se “O Lobo”.
Durante os próximos meses tentarei deixar por aqui outras letras tal como noticias para quem quiser saber por onde ando e o que está para acontecer.
Assim, fica mais uma. Chama-se...
...
Tenho o teu abraço cheio
com a solidão no meio
que não deixa abraçar
Tenho o teu olhar presente
e o desenhar do movimento
do teu corpo a chegar
Tenho o teu riso sentado
e o misterio do teu lado
que preciso desprender
Tenho o corpo a correr
Tenho a noite a trespassar
Tenho medo de te ver
É perigoso este perfume
e a memória do teu nome
é de fogo o que nos une...
tenho o espaço indeciso
dá-me mais porque preciso
mais um sopro do que tens
como pedras preciosas
que confundem a razão
O mistério do teu lado
entre o certo e o errado
bem e mal em discussão
Volta o teu abraço cheio
com o coração no meio
volto eu a disparar
Não percebo o que é que queres
Diz-me tu o que preferes
Ir embora ou ficar?
Este tempo intermédio
Entre a paz e o assédio
Não me deixa evoluir!
Não é dor nem fogo posto
é amar sem ser suposto
é dificil resistir...
deixa andar, deixa ser
quando queres entender
o que não podes disfarçar
escolhes não sentir
mas não é teu para decidir
largar o que é em vão
Meu amor esta vontade
Meu amor se é verdade
Meu amor se queres saber
Abre espaço no que é teu
Para te dar o que é meu
Deixa andar... deixa ser.
faz bem ao coração
largar o que é em vão
De todas as coisas que já tinha inventado, era dela que ele mais sentia saudade. Todo o mundo de fantasia criado quase só por ele mais alguns sinais, desenhado com cuidado e sem pensar muito. Fazia-lhe falta acreditar naquele personagem absurdo que ele salvara das trevas, essas tão reais, levando-a consigo para o lado azul cheio de luz e nuvens onde amar é possível dos dois lados ao mesmo tempo. Como era grande o seu peito de orgulho no seu feito: uma batalha de olhares e cheiros e persuasão inconsciente até construir a utopia da chegada.
Ele tinha saudades de saber desenhar com tanta naturalidade no papel onde o lápis lhe guiava a mão. Agora parecia o contrario. Ele tinha que dar ordem através da cabeça para o ombro, para o braço, antebraço, mão, dedos, lápis... e só aí surgia um pequeno risco quase tão insípido como a própria ordem. Sabia desenhar, tinha toda a informação e formação para fazer o retrato perfeito de qualquer coisa que lhe pedissem, sabia até, se quisesse, fazer uma pintura abstracta de qualidade se fosse esse o seu objectivo. Mas fosse qual fosse a cor do dia, ou a musica da rua, não parava de o assombrar aquele pequeno desenho que ele com tanta raiva guardara naquela caixa cofre forte cuja chave ofereceu ao Tejo no segundo a seguir. Era bonito demais o impulso, a ideia, o conceito, o desprendimento de tudo aquilo.
Ela começou por existir como imagem difusa ao longe mas com o tempo tornou-se claro o que tinha que acontecer: era só mudar aquilo que a desfocava, que a tornava uma coisa diferente do que ele queria exactamente. Na cabeça dele, tudo seria perfeito. Já não haveria fraquezas porque era obvia a verdade da sua invenção, nesta altura quase tão real como a vontade de viver tudo isso.
Antes do primeiro traço inventou para ela um mundo e um caminho certo a seguir. Inventou sorrisos e noites de cumplicidade absoluta onde todos os astros se juntam e dizem – “está tudo certo” ou “vão em frente juntos”. Antes de se mexer pegou num pedaço de carvão, rude, áspero, e com o gesto livre começou a desenhar com a paixão de uma onda de inverno e cada risco o abraçava e o levava até à próxima forma e desta maneira foi nascendo o centro da sua vida inteira, o motivo de todos os seus passos, da sua respiração e transpiração. Gritava de prazer e jubilo e dançava por todo o mundo de mãos dadas e abraçadas... era certo e era puro e era a redenção. Desenhou e pintou e tudo isto antes do primeiro traço. Descobriu a vida e apaixonou-se por ela sem pensar na altura a que subia antes do primeiro traço. Antes do primeiro traço... perdeu-se em tudo o que não existia... O papel branco esperava tudo isto ao mesmo tempo e por isso ele desenhou. Devagar, suavemente, do pedaço de carvão nasceu a figura de uma mulher, pura, em linha limpa, serena. Parou na ponta do ultimo cabelo e esta foi a primeira vez que o lápis se levantou. Levantou-se ele também, olhou, inspirou todo o ar da sala do seu pequeno estúdio e lentamente expirou inocentemente até não aguentar mais. E foi aqui, de peito vazio, pronto a encher, que foi inundado por um abismo absurdo, sem perceber porquê, sem aviso de parte alguma. Tentou voltar ao que era há um segundo a trás, mas o caminho já não existia. Fechou os olhos e não acreditou. Abriu os olhos de coragem e olhou de frente para o vazio, olhou a toda a volta para a desilusão do vazio. A sala era a mesma mas mais ténue. Ele era o mesmo, mas adulto. Afinal acabava logo ali. A sua historia perfeita e eterna acabava logo ali... no primeiro traço. Não havia nada a acrescentar. Qualquer pormenor podia arranhar a pureza daquela figura, do seu amor.
Pegou no papel, guardou-o numa caixa, e jurou esquece-la. Era traição esta redução de uma vida inteira de felicidade a um traço de poucos segundos. Afinal acabava logo ali... afinal nem chegou a existir... afinal não existe, afinal acabou mesmo? Jurou esquece-la porque nunca existira. A criatividade na sua forma mais perigosa...
A chave da caixa na mão, a chave de ferro pesada a escorregar pelos dedos enquanto se despedia. A chave no ar a cair até ao rio, o tempo da chave a cair, a confirmação da mentira, a chave de ferro, na agua funda liquida a desaparecer até ao infinito. A brisa fria na cara. A confirmação da liberdade. Acabou ali, afinal não foi nada.
Voltou para casa e sentou-se na varanda com vista para a cidade a ouvir Led Zeppelin – “Babe I'm Gonna Leave You” cantava Robert Plant no topo da sua viagem.
-- De certeza que nunca conseguiu cantar esta musica desta maneira outra vez...
A noite dorme
E o lobo mata
Se não te dói
Não te desata
A noite dorme
E o tempo passa
O lobo come
Mas não te caça
Não te comove
Não te mente
Nem te abraça
Não vês nuvens
mas se chove
Será que o povo
vem à praça?
Não te abraçam
Se te escondes
não te acham
se te esquivas
passa ao lado
se não te dói
ficas parado
O corvo desce
Vem rasteiro
Voo raso
Sem receio
O corvo fala
Faz magia
O lobo canta
Uma cantiga
E achas bem
Vais dançar
Cantar também
Bate palmas
Faz o pino
O lobo suja
O teu caminho
Se te distrai
Se não acordas
O sono não sai
Se não te agrada
Não te disforma
Se te incomoda
Não te transforma
enquanto não cais eu sei
que enquanto eu não for não vens
faz medo não ser igual
faz medo mudar de mão
faz medo dizer que não
mas podes tentar
No escuro não te podem ver
À sombra não te vais queimar
À sombra não serás ninguém
E enquanto não dói, eu sei
Não te sabes ver.
Hoje, quando acordei no verão, o sol parecia brilhar com mais força. Foi difícil habituar-me depois de tanto tempo a dormir. Sim, depois de turvo o sol rompeu as nuvens e iluminou o mar tão cansado, mas limpo. Já ando a escrever sobre esta possibilidade há uns tempos, mas senti-la, vê-la, tocar-lhe? ...só hoje de corpo inteiro, à luz. Foi preciso a tempestade indicar-me o caminho até à minha praia, para me esconder as feridas, recolher-me o sangue. Foi preciso o meu grito fúria de braços altos e dedos esticados firmes, foi preciso esbracejar e pontapear e olhar de frente e sem poemas de amor para o espelho na água suja caída no chão.
Sim, é de amor que falo. Coisa grande em que se acredita em certas manhãs.
Ontem, de pés assentes em pedra fria perdi a inocência,
mas hoje, acredito em muito mais coisas.
Todos os dias tomo o pequeno almoço no Dusty’s, aqui ao pé do hotel. Tem boa musica e umas raparigas vestidas "à anos 60" a servir. Estou mesmo ao pé do “Park” e hoje quase consegui chegar lá a cima a correr. O Howard veio buscar-me ao hotel às 14h e fomos para o estúdio.
Estamos em fase de misturas, ou seja, na fase em que eu preciso de me distanciar das musicas para poder ter opinião sobre pormenores quase imperceptíveis. Amanhã é o ultimo dia. Melancolia no ar... Montreal e o estúdio hotel2tango são para mim um refúgio seguro e criativo, sitio onde não se deve nada a ninguém e achamos que somos os melhores de todos.
Para a semana volto ao meu país... Apetece-me voltar, mas não me apetece voltar. Gosto tanto de voltar para Lisboa como gosto de partir, como tudo o que se banaliza por ser seguro. Lisboa é a minha cidade, e por ser minha, tenho que me afastar de vez em quando para me relembrar do que sou. Lisboa pode inspirar, e inspira! ... mas pode estagnar, também. e quando me vim embora essa agonia de ver tudo parado estava a dar cabo de mim – ter noção de que anda tudo muito ocupado e de que não existe realmente vontade de arriscar coisas diferentes para o grande público é claustrofóbico. Ter a sensação de que todos procuram formulas vencedoras à partida e que a ideia de investir na diferença (antes de ser provada noutro país) não é apropriada para a actual situação da industria, é triste.
Há alturas em que sinto que está tudo a ficar cada vez mais pequeno, que surgem novas correntes, mas que todos se idolatram dentro do mesmo quadradinho o que nos faz andar às voltas sem sair do mesmo sitio.
Sinto o mundo da musica em Portugal dividido em três: o lado demasiado pseudo-alternativo e aborrecido, aclamado pela critica, o lado comercial muito mau mas aclamado pelo publico e no meio, coisas com qualidade, ou apenas audíveis, mas condenadas a desaparecer por falta de sitio onde crescer.
Parece que o que vale no Portugal alternativo é ser um tipo estranho e sombrio que manda umas piadolas com alusões a filmes italianos e, por acaso, há quinze dias resolveu que era musico para além de outras coisas, e gravou um disco que ninguém consegue ouvir até ao fim mas que tem grandes criticas só porque não vende mais que 3 CDs.
Por outro lado, parece que o que vale no Portugal comercial é ser foleiro até mais não e usar todas as formulas dos anos 80 outra vez, mais um “RAPzinho” de má qualidade a ver se pega, letras do mais básico que já se ouviu, repetir muitas vezes o refrão, penteado tipo “Morangos com Açúcar” e mais umas armadilhas que fazem com que realmente se vendam milhares de CDs!
Não digo que o problema seja só em Portugal, não digo que o problema seja só dos Artistas, porque é também e muito provavelmente, da falta de curiosidade do público.
Mas, se o publico não vai à procura, se só descobre o que lhe dão de bandeja, porque é que a bandeja tem sempre a mesma comida?!!!
Vamos imaginar: Era uma vez um restaurante muito grande, com muitos cozinheiros diferentes e muito cozinheiros novos sempre a chegar. Todos têm o seu sitio para cozinhar e todos têm uma mesa para deixar os seus pratos para que os provadores os provem (os provadores não sabem cozinhar nada de especial mas têm computadores e estatísticas). Dentro do restaurante, milhares de mesas com milhões de pessoas à espera de uma refeição que lhes encha a barriga.
Acontece que os provadores, que não percebem muito de cozinha mas sim de gestão, a partir de certa altura percebem que o que sai bem são os bifes com batatas fritas (eu também gosto muito) e percebem que se no menu apenas houver esse prato, ninguém realmente se queixa, porque toda a gente gosta de bifes com batatas fritas!
Conclusão da história: o restaurante ganha dinheiro, os clientes enchem a barriga e os pratos que sobram apodrecem. Bifes com batatas fritas para toda a gente! E o mais engraçado, é que todos comem e com muito gosto porque ninguém sabe nem quer saber que do outro lado da parede estão mil cozinhas com mil cozinheiros a inventar pratos que mudam vidas!
Por outro lado, nos confins das cozinhas há também um grupo de cozinheiros que não são nem muito bons nem muito maus mas que se comem uns aos outros, e dizem que não precisam do restaurante para nada.
Os que restam, restam com a fé que têm no valor dos seus cozinhados, não porque seguiram regras, não porque estão bonitos, mas porque foram feitos com gosto, sem ganância nem presunção, e acham que um dia vão conseguir partilhá-los com mais gente.
Enfim...
É que aqui em Montreal (se calhar por estar cá há pouco tempo e ainda não ver o outro lado) passa a ideia de que as pessoas querem é partilhar musica e inventar formas honestas de transmitir emoções. Há muita musica menos boa claro mas na outra frente existe também tanta vontade de partilhar o Talento, aprender coisas novas como fazíamos na escola! Fazer as coisas que já sabemos, mas de outra maneira!
Gosto de canções.
Gosto que uma canção me mude, gosto que uma canção me faça simplesmente sentir bem, ou que seja a banda sonora para dois segundos da minha vida.
Gosto quando um álbum acontece como um livro: variado, emocionante, imprevisível.
Mas quem é que hoje em dia quer ouvir um álbum inteiro? Ninguém tem já serenidade para isso... A musica torna-se, como o dia-a-dia na cidade, numa coisa intensa, mas vazia.
Eu não acredito nisto, mas mesmo que uma pequena parte seja verdade, trabalho para quem gosta de ouvir.
Nunca há regresso sem a viagem não é? Então até já...
Como quem sustem o ar há tempo demais e se esquece...
começo agora a reaprender o que significa respirar fundo.
depois da ansiedade na redescoberta das origens
depois da reinvenção da primeira canção que saiu de mim,
depois de uma busca pelo amor que liga os sons ao Homem
volta o alivio de ouvir
e tudo a fazer sentido.
Montreal mais uma vez como filtro sereno e escondido,
longe.
Montreal para validar a honestidade das pedras do caminho.
...afinal, contra ou a favor da corrente,
respiro fundo
andamos sempre para a frente.
Montreal 12/06/2009
Estão todos às voltas na minha cabeça como vozes difusas a pedir espaço, a pedir prioridade. Cordas sopros coros teclas… sons por todo o lado, mil caminhos, escolher só um, limpar limpar limpar, chegar ao principio outra vez. Cortar partes, letras, excessos, coisas a mais. Deixar partes, letras, excessos, domar as coisas a mais.
O “conceito” e a “verdade” caminhando juntos, nunca se sobrepondo, nunca se anulando.
A leveza que se quer é tão fácil com tão pouco….mas há que redescobrir cada passo.
O que está feito passou. não quero repetir. Não é altura de repetir, ainda.
Sei das formulas e uso-as também, mas desdobradas, desordenadas, ambiciosas.
Não é necessário berrar para ser grande, não é preciso inventarmos personagens exuberantes para sermos diferentes
(Alguém sabe disto em Portugal? sim… é outro assunto…).
Preciso só de silêncio, honestidade e humor para começar.
Preciso de alguém solto para ver de fora.
Preciso que o meu corpo como filtro se comova com o caminho certo.
Gravar um álbum está a tornar-se nesta altura uma experiência um tanto ou quanto inquietante. Entre a genialidade e a mediocridade anda a inspiração. Entre a genialidade e a mediocridade há um espaço muito pequeno. Esta duvida constante faz obviamente parte do processo criativo e se o lado comercial não se puser ao barulho, é completamente indiferente no percurso. A ideia é mais ou menos essa. Ignorar a parte racional do que é, afinal, gravar mais um disco de originais.
Já todos fomos mais inocentes, mas também mais fracos. Nesta altura são claros os nervos que queremos estimular, em nós, e em quem nos ouve.
Aquilo que nos toca, que nos acorda.
Está a nascer um novo disco. Está na minha cabeça em peças separadas. A melhor parte de ir para estúdio, e isto fui aprendendo com a experiência, é a desconstrução das ideias concretas que depois de dois ou três meses de ensaios achamos inabaláveis. Em poucos minutos o rumo de tudo pode mudar.
Sei que o álbum não vai ser o retrato que tenho, porque se tudo correr bem, vai ser melhor.
A equipa de produção é a mesma.
Começamos a gravar dia 19.
Nesta noite onde a serenidade se esconde por de trás dos móveis e a inquietação dança por toda a casa, as duas nesta noite, a trocarem no meu corpo de segundo a segundo. As duas ausentes, invisíveis e perfurantes. Pontuais altivas penetrantes. O mistério que me arranca do sitio, à conquista de qualquer coisa que já devia ter mas que não chega.
Tudo se repete:
A manhã perfeita de magia e impossíveis cumplicidades todas a formarem uma enorme espera de sabão quase tão real… O percurso a crescer até chorar de emoção descontrolada, as razões, as motivações, tudo verdade, tudo. verdade. Não existe ninguém melhor que nós, não existe ninguém melhor que eu que nem existo até ser noite devagar.
Agora que acordei, parece tudo tão ridículo.
Agora que adormeço, tudo é tão maior que o universo inteiro em coro.
Agora que acordei, não há ninguém melhor que eu e é tudo tão efémero como chuva de verão, aquela que deixa o ar limpo.
Agora que acordo não amo, não sinto, desprezo e desdigo, deixo para trás quem já não sabe ler os sinais acordados. Desprendo, ignoro, sigo já o rumo à frente, sereno.
Sabemos as razões, sabemos as verdades e as mil mentiras, mas não resistimos às duvidas como portas entreabertas. A parte fraca não fecha portas sozinha.
A parte forte gosta de espreitar…
Hoje que adormeço, tão cansado… nesta passagem infinitamente entreaberta, sobre o teu olhar solto, inquieto, longe, inerte, à espreita… se não me lês, se não me ouves,
não existo.
O que esperam de ti?! O que é que isso interessa? A ideia é exactamente não lhes dar o que esperam! Se deres tudo, tornas-te uma coisa finita. Não é esta a ultima oportunidade, e se for, age como se não o soubesses. O desespero vê-se a olho nu como um sinal gigante de “via bloqueada” no meio da auto-estrada. Esquece tudo, esquece que estás aí, esquece que tens pessoas a olhar, pára, respira, inverte o medo. A única coisa que tens que provar é que há razão para continuares a existir, que tens mais caminho. Não digas porquê. Deixa no ar o mistério do que ainda nem tu sabes que tens para mostrar. Acredita que nunca estás só, que és apenas uma via. O que te vive é exterior a ti, é superior a ti, diverte-te com a leveza que se ganha, ri-te de ti porque és muito mais que isto. Inverte o medo. Os que esperam coisas de ti deixam de perceber as peças que te fazem funcionar. Agora os olhos que te intimidavam são os mesmos que te querem desvendar, e tu, de fora, ganhas força. Diverte-te. Aproveita. Estão todos sentados à espera de um espectáculo.
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a vontade de te domar
na fragilidade do mundo
na altura das cidades
na sombra dos cartazes
entre as luzes da fugida
e das regras que se esventram
Na viagem ao ouvido
na sedução do escuro
Na consciência da descida
a ambição da inocência
e a desconstrução do muro
Queria saber amarrar-te
Junto ao peito do segredo
E gritar-te sobre a torre
para saltarmos para a frente
para provarmos do que somos
na resposta do principio
na espiral da realidade
na frieza da verdade
Quero te encontrar
E olhar-te bem de perto
desdobrar-te e perceber
confiar e aprender
quero te navegar
para a paz de outra margem
Tiago Bettencourt
Tiago Bettencourt & Mantha