Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Sobre a Criatividade


De todas as coisas que já tinha inventado, era dela que ele mais sentia saudade. Todo o mundo de fantasia criado quase só por ele mais alguns sinais, desenhado com cuidado e sem pensar muito. Fazia-lhe falta acreditar naquele personagem absurdo que ele salvara das trevas, essas tão reais, levando-a consigo para o lado azul cheio de luz e nuvens onde amar é possível dos dois lados ao mesmo tempo. Como era grande o seu peito de orgulho no seu feito: uma batalha de olhares e cheiros e persuasão inconsciente até construir a utopia da chegada.

Ele tinha saudades de saber desenhar com tanta naturalidade no papel onde o lápis lhe guiava a mão. Agora parecia o contrario. Ele tinha que dar ordem através da cabeça para o ombro, para o braço, antebraço, mão, dedos, lápis... e só aí surgia um pequeno risco quase tão insípido como a própria ordem. Sabia desenhar, tinha toda a informação e formação para fazer o retrato perfeito de qualquer coisa que lhe pedissem, sabia até, se quisesse, fazer uma pintura abstracta de qualidade se fosse esse o seu objectivo. Mas fosse qual fosse a cor do dia, ou a musica da rua, não parava de o assombrar aquele pequeno desenho que ele com tanta raiva guardara naquela caixa cofre forte cuja chave ofereceu ao Tejo no segundo a seguir. Era bonito demais o impulso, a ideia, o conceito, o desprendimento de tudo aquilo.
Ela começou por existir como imagem difusa ao longe mas com o tempo tornou-se claro o que tinha que acontecer: era só mudar aquilo que a desfocava, que a tornava uma coisa diferente do que ele queria exactamente. Na cabeça dele, tudo seria perfeito. Já não haveria fraquezas porque era obvia a verdade da sua invenção, nesta altura quase tão real como a vontade de viver tudo isso.
Antes do primeiro traço inventou para ela um mundo e um caminho certo a seguir. Inventou sorrisos e noites de cumplicidade absoluta onde todos os astros se juntam e dizem – “está tudo certo” ou “vão em frente juntos”. Antes de se mexer pegou num pedaço de carvão, rude, áspero, e com o gesto livre começou a desenhar com a paixão de uma onda de inverno e cada risco o abraçava e o levava até à próxima forma e desta maneira foi nascendo o centro da sua vida inteira, o motivo de todos os seus passos, da sua respiração e transpiração. Gritava de prazer e jubilo e dançava por todo o mundo de mãos dadas e abraçadas... era certo e era puro e era a redenção. Desenhou e pintou e tudo isto antes do primeiro traço. Descobriu a vida e apaixonou-se por ela sem pensar na altura a que subia antes do primeiro traço. Antes do primeiro traço... perdeu-se em tudo o que não existia... O papel branco esperava tudo isto ao mesmo tempo e por isso ele desenhou. Devagar, suavemente, do pedaço de carvão nasceu a figura de uma mulher, pura, em linha limpa, serena. Parou na ponta do ultimo cabelo e esta foi a primeira vez que o lápis se levantou. Levantou-se ele também, olhou, inspirou todo o ar da sala do seu pequeno estúdio e lentamente expirou inocentemente até não aguentar mais. E foi aqui, de peito vazio, pronto a encher, que foi inundado por um abismo absurdo, sem perceber porquê, sem aviso de parte alguma. Tentou voltar ao que era há um segundo a trás, mas o caminho já não existia. Fechou os olhos e não acreditou. Abriu os olhos de coragem e olhou de frente para o vazio, olhou a toda a volta para a desilusão do vazio. A sala era a mesma mas mais ténue. Ele era o mesmo, mas adulto. Afinal acabava logo ali. A sua historia perfeita  e eterna acabava logo ali... no primeiro traço. Não havia nada a acrescentar. Qualquer pormenor podia arranhar a pureza daquela figura, do seu amor.
Pegou no papel, guardou-o numa caixa, e jurou esquece-la. Era traição esta redução de uma vida inteira de felicidade a um traço de poucos segundos. Afinal acabava logo ali... afinal nem chegou a existir... afinal não existe, afinal acabou mesmo? Jurou esquece-la porque nunca existira. A criatividade na sua forma mais perigosa...
A chave da caixa na mão, a chave de ferro pesada a escorregar pelos dedos enquanto se despedia. A chave no ar a cair até ao rio, o tempo da chave a cair, a confirmação da mentira, a chave de ferro, na agua funda liquida a desaparecer até ao infinito. A brisa fria na cara. A confirmação da liberdade. Acabou ali, afinal não foi nada.
Voltou para casa e sentou-se na varanda com vista para a cidade a ouvir Led Zeppelin – “Babe I'm Gonna Leave You” cantava Robert Plant no topo da sua viagem.
-- De certeza que nunca conseguiu cantar esta musica desta maneira outra vez...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Tiago Bettencourt às 18:27
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