Domingo, 2 de Novembro de 2008

pequena partilha

Nunca quis estar do lado de quem tem opinião, ou de quem pensa que tem opinião, ou de quem não vive se não a tiver e precisa de a expressar para se validar ou para continuar a convencer-se de que existe. É por isso que não acho assim tanta piada a determinados blogs: como se já não houvessem suficientes opiniões inúteis! Como se não houvessem suficientes opiniões inúteis, aparecem umas pessoas que resolvem criar um espaço cibernético em sua própria honra e dizer como o mundo deve ou não funcionar. E eu pergunto: Porquê? Porque é que de vez em quando vamos fazer pesquisas na net e temos que levar com uns jovens pseudo-qualquer-coisa que falam de temas superiores a eles como se o contrário fosse a realidade? Acho óptimo todos termos direito a nossa opinião, mas há que saber expressa-la com alguma coerência e lógica, sem impingir!! É que há cromos muito cromos!!
Também nunca liguei muito a críticas musicais. Quem são estas pessoas? Não as conhecemos, elas não nos conhecem… mas no entanto teimam em encaixar-nos em caixinhas com etiquetas inventadas por eles, baseadas em modas do “underground” que vêm do estrangeiro. Salvo raras excepções (porque as há) é raro ler uma crítica ou crónica de um concerto meu ou de outrem que me leve a concluir que foi mesmo aquilo que aconteceu. Parece que há sempre qualquer coisa que não bate certo... Uma das razões é obviamente porque alguns dos escribas não vão sequer aos concertos que comentam (e eu já apanhei dois ou três aldrabões destes e um deles até foi a semana passada!). Pergunto: então porquê escolher essa profissão?

 

Jovem: se és critico musical tens que amar a musica e não é só aquela que gostas. Não tem a ver com informação. Tens que amar a ideia de “existir musica”. Musica não é para quem não sente, ou para quem não está preparado para sentir. Porque há realmente pessoas que não fazem ideia do que é sentir! Existem mesmo pessoas que dia a dia se esquivam do que acham que será a sua condenação, quando no fundo poderá ser a sua libertação… mas isto é outra conversa.
Jovem: a boa música como a arte tem a ver com honestidade, com entrega do corpo e da alma por necessidade. Não tem a ver com a tua opinião, nem com a minha (e há tanto artista que eu abomino), o teu trabalho é testemunhar de forma isenta, um acontecimento imaterial. Eu tenho a noção de que é um trabalho difícil, onde está a fronteira da qualidade? da competência? da tal honestidade? Pois não sei… eu acho que isso são coisas que se notam de corpo limpo, de mente tranquila, de olhos abertos para variedade do mundo. Por outro lado eu não estou do lado da opinião, estou do outro, onde se acredita em utopias.
Jovem: não ligues a nada do que está escrito neste texto. O mundo é um esquema gigante e quadrado e cada um safa-se como pode!

Sorri com ar confiante.


 

publicado por Tiago Bettencourt às 23:47
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20 comentários:
De Marta HC a 3 de Novembro de 2008 às 02:52
Boy, one day you'll be a man.
:)

Adorei o artigo.

Parabéns pelo teu trabalho. Confesso que só o comecei a acompanhar mais atentamente este ano e tenho imensa pena de não ter ido ver um concerto teu, ainda com os Toranja, há uns anos atrás na minha cidade natal.
Outras oportunidades surgirão (espero eu).

Tudo de bom.
De Eu só a 3 de Novembro de 2008 às 03:04
Gostei da atitude (primeiro) crítica e no final paternalista sem ser ofensiva, encontrei um texto de uma jovem de 17 anos que dizia que não queria estudar história porque não a saberia ensinar sem ser de forma parcial...como explicar apenas a parte artística/arquitectónica da Praça de S.Pedro sem mencionar o facto de se ser crente ou não? Utilizo o mesmo raciocínio à música, sendo válido ou não, funciona para mim: tocam bem ou mal os instrumentos? Cantam bem ou mal as músicas? Gosto da temática ou não? Então se as respostas forem afirmativas e ainda assim eu não estiver em nenhum concerto ou não quiser o cd...é porque o problema está no meu gosto e não nos outros argumentos todos...a subjectividade do gosto e do gostar! Aprendeu e a jovem é mulher e estudou Historia da Arte...

Olha e a viagem para a Índia? Cancelamos e vamos antes passar uns dias ao Alentejo? À vila de Sintra ou aos Açores? Bem , fica bem, fica com um beijo.

P.S-É bom que haja liberdade para podermos sempre partilhar, dizer e ler(as atrocidades que às vezes)sentimos ou não!
De Diogo a 3 de Novembro de 2008 às 23:37
- Ó Tiago gosto mesmo deste blog, e acho que gosto tanto dele pelo facto de ser teu.( Não quero cair em fanatismos mas a tua música, desde os esquissos dos Toranja, que ilustram parte do que sou, do que vejo e do que sinto).
Mas parêntesis à parte, quero deixar o meu parecer sobre este teu texto. Não sei se contribuirá para alguma coisa, mas apetece-me comentar!
Primeiro deixa-me dizer que partilho do teu lado, o lado sem opiniões, ou o lado que não faz por telas. Depois, o Mundo, a Rua, a Net está tão cheia de lixo, que até é difícil olhar-mos e concentrarmo-nos no que é belo! E isso é um bem triste. Mas enfim, parte de nós procurar e lutar plo que achamos belo e de valer a pena.
Termos opiniões e expomo-las é capaz de ser interessante e saudável, mas sem cuidado nas palavras e naquilo que se diz, torna-se realmente uma coisa prejudicial à (boa) saúde mental de todos nós...
Claro que cada safa-se como pode, o problema é quando se lixam 20 ou 30 para 1 um apenas ficar safo. Mas enfim, (infelizmente) muitas vezes as coisas processam-se assim e quem saberá mudar isso?
Espero ter contribuído de alguma forma para o assunto e Tiago, deixa-me também dizer-te que a tua escrita e música dá-me boa saúde!

Abraços.
De Bárbara a 4 de Novembro de 2008 às 03:37
Bem, a música não é para ser explicada e dificilmente se descreve por palavras. É uma “pequena partilha”, mesmo que inicialmente seja um acto “egoísta”. Quem cria, cria primeiro para si e só depois para os outros. Sendo uma forma de expressão muito pessoal, também cada um a sente e recebe de forma individual. Não será assim com toda a arte? Tudo na vida? Sim, talvez. Destaco a música por ser uma forma de expressão de eleição. Nem precisa de ter palavras para “chegar” (apesar de eu ter este “problema” de dar importância às letras) e pode ser reinventada ao vivo, ao contrário de algumas artes, em que o objecto é estático.

Por vezes, sabemos que X e Y são bons músicos/cantam bem e simplesmente não nos “dizem nada”. Acho que há sempre um “clique” qualquer que nos “une” a um músico/banda e que não tem uma explicação prévia, isto é, geralmente não escolhemos gostar, mas depois de gostarmos, conseguimos dizer o que nos agrada. Pessoalmente, até acho que há alguns momentos “certos” para começar a gostar de algum músico/banda. Não estou a falar em destino nem nada, mas já “passei por” músicas de bandas/artistas e não liguei, e depois, mais tarde, ouvi de novo e algo "ficou" e agarrou-me.

Parece que me desviei muito do assunto ups!.... Quanto aos críticos, confesso que deve ser difícil julgar a música dos outros. Tenta-se a todo o custo meter a música em “compartimentos” e racionalizar, para tentar ter alguma objectividade em algo que é muito subjectivo. Ainda deve ser mais difícil ler uma crítica de alguém que não sabe nada sobre nós nem se preocupa em saber, que não nos dá uma oportunidade – possivelmente com ideias pré-concebidas – nem perdeu tempo a tentar assimilar o que quer que fosse. Quando a isso se alia desrespeito e/ou incompetência, como o caso dos jornalistas que nem ao concerto vão, bem....... Também sei de uma situação, no estrangeiro, de um jornalista que muito provavelmente não foi ao concerto sobre o qual escreveu uma crítica. Há uns anos, num comentário que fiz a um trabalho teu, escreveste que percebi algumas coisas que alguns pseudo-críticos não perceberam. Se calhar, alguns críticos estão realmente demasiado preocupados com os prazos e em catalogar a música (e não a ouvem nem a sentem), e eu/outras pessoas mais predispostas a ouvir e a atentar nos pormenores, a "perder" tempo com isso, a sentir sem ter qualquer obrigação de formar uma opinião e fazer um comentário elaborado. Há uma linha muito ténue entre aquilo que é objectivo e aquilo que é subjectivo numa crítica, pelo que não me alongo mais. Já agora, deve haver críticos competentes, como em todas as profissões, claro. Não costumo ler muitas críticas, mas a verdade é que, consciente ou inconscientemente, qualquer pessoa que leia uma crítica retira dali algo - e isso pode ser a "verdade" ou não.
Fui!

P.S.: A cena do "jovem” fez-me lembrar aquilo do “jovem, se tens mais de 18 anos, vem para a Marinha” ou assim :P

P.P.S.: houvessem > houvesse
De Helena a 4 de Novembro de 2008 às 15:47
Quanto ao texto, não quero ser aquele género de pessoa que concorda com tudo o que o Tiago diz, só por ser simpatizante e fã do seu trabalho mas, a realidade é mesmo essa... Não sei ao certo o que se passou e não tenho muita intenção de saber mas acho que o que vos fazia bem era sair à rua e apreciar este nosso Outono. Já viram bem as cores, as árvoreS?
Aproveitem e comam umas castanhinhas para digerir :D
De Mônica a 5 de Novembro de 2008 às 06:19
Penso como tu. Acho que não há necessidade de sabermos a opinião de um crítico, basta ouvirmos o CD e tirarmos nossas próprias conclusões. Nem preciso comentar muito porque tu já falaste tudo no texto. Parabéns.
Ah! Ganhaste mais uma leitora assídua.

Abraço.
De Cristina a 6 de Novembro de 2008 às 00:23
Pois, o “segredo” para perceber as fronteiras e estar apto a expressá-lo quando é preciso parece estar em conseguir manter “o corpo limpo”, “a mente tranquila”, “os olhos abertos para variedade do mundo” em todos os momentos relevantes da vida que são seguramente todos aqueles que pertencem a cada um de nós, sem excepção.
Esta pequena/ grande (e participada) partilha fez-me pensar na questão da identidade, como algo a que nos “agarramos” na tentativa de nos reconhecermos a nós próprios e de termos o reconhecimento dos outros. Será, como tal, algo construído com uma grande base naquilo que sentimos como sendo as expectativas dos outros face a nós, daqueles de quem gostamos e por quem queremos ser gostados, tantos e tão diferentes, ao longo das nossas vidas.
Teremos, então, na identidade, uma estrutura construída num acumular de camadas em cujas brechas vemos sempre a “ameaça” de não sermos merecedores do amor. Sendo este medo grande, dá lugar a mais um andar da nossa identidade e assim as partes se vão sobrepondo ao que é uno e único – o ser, a essência.
Deixamos de estar totalmente presentes porque estamos “agarrados” a algo que se formou no passado e que estamos a tentar manter, de forma mais ou menos desadequada, ao presente.
Toda esta volta para voltar ao “corpo limpo”, à “mente tranquila” a aos “olhos abertos para a variedade do mundo”. E, claro, poderia, eventualmente, ser também o início da continuação da ideia “existem mesmo pessoas que dia a dia se esquivam do que acham que será a sua condenação, quando no fundo poderá ser a sua libertação...”. Apesar da dificuldade em definir as fronteiras, esta é mesmo outra conversa ;-)

De Valter (um jovem) a 8 de Novembro de 2008 às 18:50
Em relação a esta pequena partilha creio apenas que a fronteira da qualidade se fica pela fronteira entre trabalho e trabalho/arte.
E se o trabalho for muito e a arte ainda maior... Aí se encontra o verdadeiro virtuosismo.
De Sandra A. a 8 de Novembro de 2008 às 20:28
que posso dizer? que concordo ctg qto ao impingir opiniões, e q o facto de seres avaliado por alguem que não conhece o teu trabalho e não presenciou o que comenta, deixa-m a pensar q essa propria pessoa é q dvia ser avaliada no que faz..
e como em tudo, ha necessidade de categorizar, o que acaba por reduzir mtas vezes a musica, por esta ser tao heterogénea..ms sabes, infelizemt há quem precise dessas etiquetas pa decidir o q gosta.
Daí que, tens toda a razão qd dizes q a musica é para quem sente..não são as etiquetas mas sim o que a musica nos transmite que nos faz gostar verdadeiramente;)


ja passou uma semana, mas quero deixar a minha pequena partilha:
obrigado pelo concerto de vila real! voces estiveram mto bem, e o joao lencastre estava com a pica toda!! gostei d o ver no piano =) (vi bem, certo? lool)
Foi daqueles concertos q souberam bem bem bem =)!! Que venha o proximo (no Porto de preferência).
De Eduardo Marques a 14 de Novembro de 2008 às 23:23
Talvez me enquadre no perfil de cromo muito cromo... De facto existe essa realidade... para já vou escrevendo o que aflora à superfície da alma (ou "lá fora ninguém sabe que por dentro há vazio"). Por vezes é bom. Por outras, ingrato.
Por sinal, gosto da sua pequena partilha... do seu contributo. Este blog é fantástico e faz-nos entrar noutro mundo. Numa realidade mascarada pela imaginação. Obrigado, Tiago, pelo seu contributo...

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