Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

18/6/2009 Avenue du park

 

 

 

Todos os dias tomo o pequeno almoço no Dusty’s, aqui ao pé do hotel. Tem boa musica e umas raparigas vestidas "à anos 60" a servir. Estou mesmo ao pé do “Park” e hoje quase consegui chegar lá a cima a correr. O Howard veio buscar-me ao hotel às 14h e fomos para o estúdio.
Estamos em fase de misturas, ou seja, na fase em que eu preciso de me distanciar das musicas para poder ter opinião sobre pormenores quase imperceptíveis. Amanhã é o ultimo dia. Melancolia no ar... Montreal e o estúdio hotel2tango são para mim um refúgio seguro e criativo, sitio onde não se deve nada a ninguém e achamos que somos os melhores de todos.
 Para a semana volto ao meu país... Apetece-me voltar, mas não me apetece voltar. Gosto tanto de voltar para Lisboa como gosto de partir, como tudo o que se banaliza por ser seguro. Lisboa é a minha cidade, e por ser minha, tenho que me afastar de vez em quando para me relembrar do que sou. Lisboa pode inspirar, e inspira! ... mas pode estagnar, também. e quando me vim embora essa agonia de ver tudo parado estava a dar cabo de mim – ter noção de que anda tudo muito ocupado e de que não existe realmente vontade de arriscar coisas diferentes para o grande público é claustrofóbico. Ter a sensação de que todos procuram formulas vencedoras à partida e que a ideia de investir na diferença (antes de ser provada noutro país) não é apropriada para a actual situação da industria, é triste.
Há alturas em que sinto que está tudo a ficar cada vez mais pequeno, que surgem novas correntes, mas que todos se idolatram dentro do mesmo quadradinho o que nos faz andar às voltas sem sair do mesmo sitio.
 
Sinto o mundo da musica em Portugal dividido em três: o lado demasiado pseudo-alternativo e aborrecido, aclamado pela critica, o lado comercial muito mau mas aclamado pelo publico e no meio, coisas com qualidade, ou apenas audíveis, mas condenadas a desaparecer por falta de sitio onde crescer.
Parece que o que vale no Portugal alternativo é ser um tipo estranho e sombrio que manda umas piadolas com alusões a filmes italianos e, por acaso, há quinze dias resolveu que era musico para além de outras coisas, e gravou um disco que ninguém consegue ouvir até ao fim mas que tem grandes criticas só porque não vende mais que 3 CDs.
Por outro lado, parece que o que vale no Portugal comercial é ser foleiro até mais não e usar todas as formulas dos anos 80 outra vez, mais um “RAPzinho” de má qualidade a ver se pega, letras do mais básico que já se ouviu, repetir muitas vezes o refrão, penteado tipo “Morangos com Açúcar” e mais umas armadilhas que fazem com que realmente se vendam milhares de CDs!
Não digo que o problema seja só em Portugal, não digo que o problema seja só dos Artistas, porque é também e muito provavelmente, da falta de curiosidade do público.
Mas, se o publico não vai à procura, se só descobre o que lhe dão de bandeja, porque é que a bandeja tem sempre a mesma comida?!!!
 
Vamos imaginar: Era uma vez um restaurante muito grande, com muitos cozinheiros diferentes e muito cozinheiros novos sempre a chegar. Todos têm o seu sitio para cozinhar e todos têm uma mesa para deixar os seus pratos para que os provadores os provem (os provadores não sabem cozinhar nada de especial mas têm computadores e estatísticas). Dentro do restaurante, milhares de mesas com milhões de pessoas à espera de uma refeição que lhes encha a barriga.
Acontece que os provadores, que não percebem muito de cozinha mas sim de gestão, a partir de certa altura percebem que o que sai bem são os bifes com batatas fritas (eu também gosto muito) e percebem que se no menu apenas houver esse prato, ninguém realmente se queixa, porque toda a gente gosta de bifes com batatas fritas!
Conclusão da história: o restaurante ganha dinheiro, os clientes enchem a barriga e os pratos que sobram apodrecem. Bifes com batatas fritas para toda a gente! E o mais engraçado, é que todos comem e com muito gosto porque ninguém sabe nem quer saber que do outro lado da parede estão mil cozinhas com mil cozinheiros a inventar pratos que mudam vidas!
Por outro lado, nos confins das cozinhas há também um grupo de cozinheiros que não são nem muito bons nem muito maus mas que se comem uns aos outros, e dizem que não precisam do restaurante para nada.
Os que restam, restam com a fé que têm no valor dos seus cozinhados, não porque seguiram regras, não porque estão bonitos, mas porque foram feitos com gosto, sem ganância nem presunção, e acham que um dia vão conseguir partilhá-los com mais gente.
Enfim...
É que aqui em Montreal (se calhar por estar cá há pouco tempo e ainda não ver o outro lado) passa a ideia de que as pessoas querem é partilhar musica e inventar formas honestas de transmitir emoções. Há muita musica menos boa claro mas na outra frente existe também tanta vontade de partilhar o Talento, aprender coisas novas como fazíamos na escola! Fazer as coisas que já sabemos, mas de outra maneira!
 
Gosto de canções.
Gosto que uma canção me mude, gosto que uma canção me faça simplesmente sentir bem, ou que seja a banda sonora para dois segundos da minha vida.
Gosto quando um álbum acontece como um livro: variado, emocionante, imprevisível.
Mas quem é que hoje em dia quer ouvir um álbum inteiro? Ninguém tem já serenidade para isso... A musica torna-se, como o dia-a-dia na cidade, numa coisa intensa, mas vazia.
Eu não acredito nisto, mas mesmo que uma pequena parte seja verdade, trabalho para quem gosta de ouvir.
Nunca há regresso sem a viagem não é? Então até já...

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Tiago Bettencourt às 11:43
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19 comentários:
De Bárbara a 16 de Julho de 2009 às 12:46
Isso é que foi escrever!
Acredito que a música é, acima de tudo, emoção para aqueles que a fazem e ouvem, porque há sempre um "click" que nos faz gostar de algo mais do que de outra coisa. E isso não tem a ver com a forma como se toca ou canta, mas com algo sem explicação.

É um facto que todos os dias entra a mesma música pela nossa casa/TV/ouvidos dentro. A maioria, ou por termos perdido a paciência ou por ser demasiado "vazia", torna-se cansativa e pomos de lado ao fim de algum tempo - como uma pastilha elástica (ou "chiclete", como se diz no norte) que perde o sabor. É a diferença entre o bife com batatas fritas e a comida-diferente, o que quer que ela seja. É bom que exista o bife para sabermos que há a comida diferente, e é bom que haja essa comida diferente, que se renove, para que, mesmo que não a consigamos acompanhar ou compreender em determinada altura, possamos, posteriormente, explorar, havendo mais sumo.

Penso tambem que muitas vezes a nossa predisposiçao é que se altera e nao a musica em si. Isto é, ha momentos em que somos indiferentes àquilo que ouvimos e, de repente, dá-se o tal "click". Para mim, o facto de se ter dado nesse momento é a coisa mais lógica e espontânea. Não quer dizer que a pessoa nao "compreendesse" a canção, nao quer dizer que nao estivesse preparada...mas ha um conjunto de factores que nos levam a *sentir* a cançao de maneira diferente. E com isto nao me refiro ao sentir só de sentimentos, mas à forma como algo *chega* a nós.


Não acredito que haja um país perfeito, mas acredito que haja melhores condições para os músicos. No entanto, haverá sempre diferentes tipos de músicos e de ouvintes.



beijinhos
e até Cerveira ;)


B.
De luis a 16 de Julho de 2009 às 17:26
ainda bem, por um lado que ja vens o que significa que nao tarda nada para termos o teu album nas mãos... queria pedir aqui uma informação: concertos do tiago alguem sabe? ou se tu, tiago me pudesses dizer e que nao encontro em lado nenhum informações...obrigado... e até já então...
De Bárbara a 16 de Julho de 2009 às 17:45
Luís, vê no myspace do João Lencastre, costuma ter..

Jul 25 2009 10:00P
Vila do Rei W/ Tiago Bettencourt & Mantha Castelo Branco

Aug 8 2009 9:30P
Vagos W/ Tiago Bettencourt & Mantha Vagos, Aveiro


Acrescento: 15 Agosto, V.N.Cerveira, Tiago Bettencourt


De Carla a 17 de Julho de 2009 às 15:59
Que "desabafo" tão sentido e tão cheio de razão!
Acho que o problema não é só deste país, se calhar notamos mais porque vivemos cá, mas penso que é geral. A culpa será do público, que à partida não se interessa por procurar coisas novas e diferentes, mas também da indústria (em grande parte) porque não quer apostar nessas coisas novas e diferentes porque não há garantia do retorno (leia-se: dinheiro), o que como sabemos é que "faz girar o mundo"! E, por isso, há que continuar a apostar no mesmo porque aí estão seguros do que irão obter!
Tenho esperança que esta onda passe e que uma maior fatia de público "acorde" e descubra a existência de coisas completamente diferentes mas nem por isso de menor qualidade. Bem pelo contrário!
Quanto a: quem quer ouvir um álbum inteiro? Eu quero! Estou à espera do teu (lógico que também há outros)! Para mim nada se compara a ir comprar o cd, tirar o celofane, colocá-lo no discman e ir ouvindo ao mesmo tempo que desfolho o "booklet" e vou descobrindo as letras das músicas! É como ler um livro! Serei incapaz de ler um livro na internet! Eu quero ter uma coisa palpável, sentir o cheiro, ir deslizando a mão até ao final da página para a virar no momento certo e ver as páginas que faltam para o final a diminuir. ;)
Por isso, continua, não desistas porque não estás só!

Bem-vindo e... até Cerveira!

Beijinhos,

Carla
De D a 17 de Julho de 2009 às 20:32
Nunca serás um bife com batatas fritas (os quais gosto muito também).

Espero ansiosamente esse álbum, e encontrar nele banda sonora para 31.536.000 segundos da minha vida
De Marcos Grimm a 18 de Julho de 2009 às 03:34
Só se sente falta, do que se perdeu, concorda?
se você sente essa falta de uma boa música em portugal, talvez signifique que uma vez ela existiu. Tem que procurar saber o que aconteceu com esta música, e como foi criada... pra tentar saber como criar músicas novas, mas se sentir como se sentia antigamente, quando eram boas músicas.
acho que fui um pouco confuso.

abraços
De Tiago M. a 20 de Julho de 2009 às 11:21
Existem músicas e músicas; existem álbums e álbums; e existem artistas e artistas. A tua música, mistura de harmonia com certos toques de inovação e originalidade, já me conquistou: já mudou a minha vida, alterou o rumo. Só por isso, só pegando neste ponto, já é o suficiente para te agradecer.

E se o teu Jardim me surpreendeu, esse novo que ai vem alimenta em mim grandes expectativas. Tenho quase toda a certeza e algumas coisas: não vai ser bife com batatas fritas, mas vai saber tão bem como um; não vai ser feito de êxitos comerciais em que todo o país vai cantar as músicas de cor, mas na semana seguinte vai esquecer-se do nome Tiago Bettencourt - quem é esse?

- Era aquele que cantava aquela música, lembras-te?
- AAAAAAAH, sim, aquela! Já me fartei.
- Eu também.

Não vai ser assim. Pode tocar apenas 1000 pessoas, ou 100, ou 1 só. Mas a quem tocar vai marcar. Não falo pelos outros, mas falo por mim. O Jardim mudou o conceito que tenho de boa música. Espero que este próximo albúm me volte a surpreender.

Bom trabalho!
De Gonçalo Rosário a 21 de Julho de 2009 às 17:38
Concordo perfeitamente com tudo o que escreveste

para mim as expectativas para este novo cd sao mesmo muito elevadas. O Jardim é no mínimo espectacular..é aquele cd que não me canso de ouvir.... e ouvir e ouvir. Até hoje nenhum cd me tinha provocado tal sensação. é profundo, não é básico..sempre que se ouve descobre-se algo novo que estava lá subentendido mas que nao se capta ao primeiro instante. É um cd rico, que me enriquece e que me faz sentir bem! Parabéns e que venha o próximo.
De inês a 20 de Julho de 2009 às 14:30
que bom saber que o tiago já está de volta a Lisboa, e que o novo albúm já está quase a sair! este novo albúm também vai contar com os mantha? ou é completamente a solo? (:

Apesar de haver bandas com "letras do mais básico que já se ouviu", o tiago tem as melhores das melhores. É isso que mais me fascina nas suas músicas, as letras. Ao cantá-las, sei que estou a cantar uma coisa que para mim faz sentido e isso é bom.
um beijinho, e espero por um concerto no Olga com o novo albúm :p
De carina a 20 de Julho de 2009 às 17:32
"Os que restam, restam com fé..." ! É aqui que coloco a tua música, as tuas palavras, em ultima instância, TU! É que a tua música é para consumir do início ao fim, e ela já serviu de banda sonora para muitos momentos da minha vida! Não tenho fé, SEI que o próximo CD será inspirador e vou voltar a fechar os olhos e esquecer o mundo, ao ouvi-lo desde o início ao fim!!! :)
De Eu só a 21 de Julho de 2009 às 15:30
Obrigada.;)
De frutodobosque.blogspot.com a 23 de Julho de 2009 às 18:30
Acho que os bifes com batatas fritas deviam acabar, tb ja ninguém suporta "comer" sempre a mesma coisa, quer dizer quase ninguém. Enfim, o problema do público português é a falta de originalidade, de percepção de que é na diferença que está a magia e, inevitavelmente o que é bom. Mas não me importo, porque para mim tem mais valor algo desconhecido do que aquelas músicas que nos saturam o ouvido, de constantemente passarem em todo o lado...
Defendo que a genialidade tem em parte uma fatia de mistério e nem todos chegam lá...
Já agora, acho que nunca vais ser um cozinheiro de batatas fritas, apostas mais na inovação e no que é saudável e claro, nós agradecemos! he he =)

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